Resumo
Ancorado em aportes teóricos dos estudos sobre a memória, o artigo examina o modo como o tema se manifesta no campo literário, tomando como objeto de análise o romance Bambino a Roma (2024), de Chico Buarque. O estudo, sustentado também por referenciais da psicanálise, destaca como a narrativa, permeada por lembranças sensoriais e afetivas, articula dimensões individuais, históricas e culturais da experiência. Com base em conceitos freudianos acerca das memórias e em diálogo com autores como Halbwachs, Ricoeur e Bosi, observa-se como o texto literário se constitui como espaço de (re)criação de lembranças e de problematização das formas de lembrar e esquecer. A leitura propõe que, ao revisitar o passado, o narrador evidencia o caráter ficcional da memória e o potencial expressivo da escrita como forma de elaboração subjetiva e histórica.
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